O ao vivo acabou? Ou a sinfonia e o selfie

Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz. 2016. Foto: Elza Lima/Secult

O espetáculo ao vivo é, cada vez mais, algo residual. A relação entre apresentação e público, na qual predomina uma interação direta, foi, em muitos aspectos, substituída pelo tecnicismo, pela mediação potencializada e encantatória da maquinaria contemporânea.

Recentemente, a OSTP (Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz) executou, em Belém, sob a regência de seu maestro titular, Miguel Campos Neto, a Sinfonia nº 4 em Mi bemol maior (Romântica), do compositor austríaco Anton Bruckner(1824-1896).

Ovacionada ao final, a apresentação, segundo afirmou o maestro, buscava “suprir algumas lacunas no repertório da orquestra e da cidade, como, por exemplo, as sinfonias de Bruckner, de Brahms, Mahler, o que é básico em orquestra sinfônica”.

Essas lacunas são diferentes daquelas que tentamos, ao acompanhar uma apresentação, preencher através do uso ubíquo da tecnologia. A percepção de uma obra, seja ela visual, ou predominantemente sonora, já é, há tempos, uma fruição que não depende mais, exclusivamente, do sujeito como o único intermediário.

Especialmente porque essa percepção deseja que a performance não apenas seja “maior” do que ela mesma, mas que ela nos dê algo que nos falta. Isso parece simplesmente contraditório, mas é uma contradição de nossa condição.

A intensa tecnicidade de nosso mundo ao mesmo tempo que proporcionou o “espetáculo” na sala de estar, nos empurrou para um desejo de senti-lo, “mais uma vez”, ao vivo, como performance. É o que nos relembra Steven Connor em Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo.

Os fundamentos conceituais desse debate já foram discutidos por, dentre outros, Walter Benjamin (citado por Connor) em seu célebre – e complexo – texto sobre a perda da aura. Connor atualiza parte dessa abordagem benjaminiana.

Nas contemporâneas performances (os exemplos do autor são mais ligados ao rock, mas, especialmente hoje, eles servem para outros estilos e apresentações) “a intimidade e a imediatez nessa escala [de grandes performances] só podem ser alcançadas por atos maciçamente conspícuos de representação. Uma enorme amplificação, imagens impressionantemente expandidas: eis as formas assumidas pela reprodução no contexto do ao vivo. […] Não causa surpresa o sucesso deste oxímoro pós-moderno, a ‘gravação ao vivo’”.

Como seu contexto é outro, Connor centra-se principalmente nesses aspectos espetaculares do ao vivo. Mas o advento das técnicas portáteis de registro e a possibilidade de termos, em nossa memória virtualizada, as imagens dessas apresentações, tornaria esse diagnóstico mais complexo.

A conhecida imagem de celulares registrando espetáculos nos dá um pouco da visão desse sintoma. De certo modo, essa atitude satisfaz um desejo de que a construção de nossa percepção do que está sendo apresentado, possa ser mediada pela sua captação/captura de um momento que deve permanecer pelo tempo de sua/nossa “necessidade”.

É como se o espetáculo precisasse estar inerentemente ligado ao “Eu”, como um selfie que, em um lampejo, permanece, sobre o qual cremos exercer algum domínio e dar-lhe, andante quasi allegro, um “destino”, um endereço.

Não se busca mais somente as grandes performances em telas e sons de alto alcance que indiciem uma experiência recompensadora e imediata. Procura-se se inserir, literalmente, no hic et nunc (aqui e agora) do ato, mesmo que, ou exatamente por isso, ele tenha sido feito para ser visto, contemplado. Deseja-se ser, performaticamente, também autor do espetáculo.

É claro que não se deve desconsiderar, dentre outras questões, que as avançadas técnicas proporcionaram a apreciação de conteúdos de variados tipos. Assuntos que, até então, eram restritos a fontes inacessíveis e que, talvez por isso, permaneciam muito mais como conteúdos especializados.

A empolgante apresentação, pela orquestra, da sinfonia do compositor austríaco não deve ser encarada apenas como um resíduo do ao vivo, mas, também, como uma possibilidade. Talvez possa ser uma tentativa persistente, não necessariamente substituta, de preencher as lacunas de nossa percepção, como um exercício de se voltar a algo que se aproxime de uma sensação de experiência única.

Uma experiência do perceptível. Não com uma visão romântica de uma percepção imaculada, nem apenas através de nossos modos Self de fruição e registro, mas repleta de variabilidade e “contrapontos”, como a Romântica, de Bruckner.

 

Texto publicado em O liberal, 09 de maio de 2017, p. 2. Em: Digestivo Cultural

E contou com a leitura de Ernani Chaves.

 

 

 

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